4 de julho de 2009

tem medo de envelhecer?

4 comentários:

Didas disse...

Eu cá tive 16. Mas o paleio deu o mesmo.

entremares disse...

Uma última pincelada... não... talvez um pouco mais de sombras ali ao canto... sim, sem dúvida... muito mais real... um último risco nos cabelos... e ... pronto.
Afastou-se um pouco e, de spray em punho, borrifou toda a superfície do quadro com o fixador.
De imediato, as cores ganharam um colorido brilhante, enquanto a vaporização do produto revestia toda a superfície da tela de uma finíssima camada protectora, impermeável ao pó e à humidade, saturando toda a pigmentação das tintas com tonalidades mais vivas, como se de uma superfície molhada se tratasse.
Pronto... estava terminado.

Retrocedeu dois passos, para contemplar a obra.
Uma figura feminina, de longos cabelos brancos, pele morena e enrugada pelas marcas evidentes do tempo, lenço colorido pendido dos ombros e um olhar – e que olhar – penetrante, muito violeta... sobressaía do fundo acinzentado de um areal – talvez uma praia – ocupando toda a parte central da tela.
O retrato devolveu-lhe o olhar, um olhar carregado com a tranquilidade da idade, de sorriso cativante. Aqueles olhos transbordavam de cor, de um violeta tão vivo como o alecrim dos campos, com uma expressão de quem está a contemplar o mundo, como se o mundo real estivesse dentro da moldura e aquele ali fosse sómente... uma fantasia.

Com muito cuidado, assinou o seu nome, no canto inferior. Depois, com a ponta afiada do estilete, riscou a moldura, escrevendo:

“ Auto retrato – Sofia “

A porta do pequeno estúdio abriu-se e, por uns segundos, os ruídos e som ambiente do mundo exterior misturaram-se com o cheiro forte das tintas.
- Já terminaste?
Ela lançou-lhe um aceno de confirmação, enquanto soprava uma madeixa de cabelos que teimava em cair-lhe sobre os olhos.
- Já... já terminei. Queres vê-lo ?
- Claro que quero. Posso ?
Ela afastou-se para o lado. O marido aproximou-se e, por longos instantes, quedou-se imóvel a fixar o quadro, bebendo-lhe os pormenores.
- Gosto muito do olhar... tem um brilho... que me agrada muito... tem energia.
- Ainda bem que gostaste...
- Que idade lhe darias ? – e o marido apontava para o quadro – talvez uns setenta ?
- Sim... concordou ela – ou até um pouco mais...
O marido aproximou-se mais. Os óculos escorregaram-lhe pelo nariz, enquanto observava com interesse os rabiscos na moldura.
- E isto ... o que é ?
- É o nome do quadro... todos os quadros devem ter um nome, não achas ?
- Pois... isso eu percebo... mas tu escreveste aqui “ Auto retrato “... ou sou eu que estou a perceber mal ?
Ela lançou-lhe um sorriso ternurento.
- Não, não estás a perceber mal... isso é mesmo assim, é um auto retrato da Sofia, da tua mulherzinha pintora de trazer por casa...
Ele hesitou, pesando bem as palavras.
- ... Oh, Sofia... o olhar da senhora do quadro... até que me parece bem o teu... mas quantos anos disseste que tinha aquela personagem que pintaste ?
- ... algures entre os setenta e os oitenta...

Ele abraçou-a, passando-lhe a mão pela cabeleira negra.
- Sofia... mas tu tens a mesma idade que eu, não tens ? ... Ainda vamos fazer quarenta, se não me falham as contas...
- ... lá isso é verdade... – e ela ria bem disposta - ... e então, há alguma coisa que me impeça de desenhar um auto retrato de quando eu for velha ?
- ... pois... fiquei sem palavras... então, aquela ali... és tu ?
- Por enquanto... ainda não... mas se tudo correr bem... olha que não me importava nada de chegar aquela idade com aquele visual... e tu, achas que eu vou ter aquele aspecto ?
O marido não sabia muito bem o que lhe haveria de responder.
- Bem... a resposta é fácil... seja lá o que for que eu responda ... vamos ainda ter muitos anos até descobrirmos se acertei ou não... não é ?


( Bom fim de semana... )

Fernanda, se preferir pode ser FER disse...

Parabéns pelo resultado, a vida é mesmo para ser vivida, é feita de fases e o melhor é que saibamos passar por cada uma delas da melhor forma.
Tenha um belo inicio de semana,
Fernanda
http://mamaocomacucar.sampasite.com

cereja disse...

Claro que o resultado era o que esperava, mas cá por mim é daquelas casos que não se confessa o que não se quer.
E a nossa velhice é bem diferente da dos nossos pais ou avós. Agora somos mesmo mais novos, lol!!!

Os sete maridos de Evelyn Hugo

Os sete maridos de Evelyn Hugo by Taylor Jenkins Reid My rating: 3 of 5 stars Um livro levezinho, bom para distrair.