5 de março de 2007

Criancinhas

A criancinha quer Playstation.
A gente dá.

A criancinha quer estrangular o gato.
A gente deixa.

A criancinha berra porque não quer comer a sopa.
A gente elimina-a da ementa e acaba tudo em festim de chocolate.

A criancinha quer bife e batatas fritas. Hambúrgueres muitos. Pizzas, umas tantas. Coca-Colas, às litradas.
A gente olha para o lado e ela incha.

A criancinha quer camisola adidas e ténis nike.
A gente dá porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é perigoso ser diferente.

A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde.
A gente senta-a ao nosso lado no sofá e passa-lhe o comando.

A criancinha desata num berreiro no restaurante.
A gente faz de conta e o berreiro continua.
Entretanto, a criancinha cresce.
Faz-se projecto de homem ou mulher.
Desperta.
É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir mesada, semanada, diária.
E gasta metade do orçamento familiar em saídas, roupa da moda, jantares e bares.
A criancinha já estuda.
Às vezes passa de ano, outras nem por isso.
Mas não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.
A criancinha cresce a ver Morangos com Açúcar, cheia de pinta e tal, e torna-se mais exigente com os papás.
Agora, já não lhe basta que eles estejam por perto.
Convém que se comecem a chegar à frente na mota, no popó e numas férias à maneira.
A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências, inicia o processo de independência meramente informal.
A rebeldia é de trazer por casa.
Responde torto aos papás, põe a avó em sentido, suja e não lava, come e não limpa, desarruma e não arruma, as tarefas domésticas são «uma seca».
Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco minutos pôr nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua sorte, mimo e umbiguismo.
A criancinha, já crescidinha, fica traumatizada.
Sente-se vítima de violência verbal e etc e tal.
Em casa, faz queixinhas, lamenta-se, chora.
Os papás, arrepiados com a violência sobre as criancinhas de que a televisão fala e na dúvida entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do ordenado em folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas bofetadas bem dadas no professor «que não tem nada que se armar em paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu».
A criancinha cresce.
Cresce e cresce.
Aos 30 anos, ainda será criancinha, continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda fatia do salário deles.
Provavelmente, não terá um emprego. «Mas ao menos não anda para aí a fazer porcarias».
Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha?
Pois não, bem sei.
Estou apenas a antecipar-me.
Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo.
E então teremos muitos congressos e debates para nos entretermos.
Miguel Carvalho, Visão Online

9 comentários:

Chussa disse...

Isto já contece hoje em dia. Muitas "criancinhas" adultas não querem trabalhar, vivem à conta dos pais até poderem e depois à conta da sociedade (nós) que nos esfalfamos a trabalhar para dar a pensão social aos "coitadinhos". Infelizmente é um retrato bastante fiel do que se está a tornar a nossa realidade! E é um retrato assustador...

PN disse...

Mais uma vez uma excelente escolha de um artigo.

José Alberto Mostardinha disse...

Olá Pocinhas:

Perfeito... retrato que não precisa de "kodak" para ter uma película "negra".
Boa semana.
Bjs,

nena disse...

Só não concordo com isto: Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha?

É muito mais geral, mesmo das escolas boas e que não são problemáticas.

IC disse...

É assustador e actual, por todo lado vejo, e auguro isso mesmo.

Rita Inácio disse...

Concordo com a nena...
Este problema já abrange todas as classes! É triste mas o respeito perdeu-se, e quando não há respeito dentro das famílias, muito menos haverá para com a sociedade...

Basta observarmos nos transportes públicos os comportamentos das pessoas (principalmente dos jovens) e veremos o quanto este texto é real.

josé palmeiro disse...

Concordo em absoluto, com o artigo e o contributo da mena e da rita inácio.
Viva a espreteza da raposa.

Didas disse...

É mais ou menos isso. :(

PSousa*Bancada Directa* disse...

Mas os culpados são os pais que dão essas benesses, aos seus filhos...Abraço e está linkado em Bancada Directa.