8 de março de 2005

Exames: sim ou não?

Não me esqueci da promessa que fiz no Memória Flutuante de comentar o post sobre exames.
Só que o comentário estava a ficar enorme e resolvi transformá-lo em artigo, ficando assim mais aberto à discussão num blog que não é tão dirigido a professores.
Tal como David Justino também acho que às vezes o bom senso e o senso comum resultam melhor que muitos estudos... O pior é quando o senso comum de bom senso não tem nada!
O meu bom senso (e muitos anos de prática) diz-me que exames no 1.º ciclo nem pensar!
Nestas idades as avaliações devem ser contínuas. Até os próprios testes de avaliação trimestral não mostram aquilo de que os alunos são capazes.
Eu faço-o por uma certa obrigação e também para os pais verem a evolução dos seus meninos. Se fosse só para mim, nem preciava de os fazer...
Já no 9.º ano e como muito bem refere Varela de Freitas no seu post, a situação é diferente. Chega-se lá com 15 ou 16 anos e já se deve ter uma ideia do que se quer da vida. E o exame surgirá como um ponto de viragem: se quer continuar a estudar já está na altura de enfrentar uma selecção, pois daí para a frente as coisas não vão ser fáceis.
Por outro lado se até aí não conseguiu grandes resultados nos estudos talvez seja altura de mudar de rumo...

Mais do que investir em exames deve-se investir em cursos tecnológicos virados para a vida prática e acessíveis àqueles jovens que não gostam de estudar!
Ninguém pensa (porque se calhar não é políticamente correcto) nos direitos daqueles que não gostam de estudar. Eu, como me passam muitos pelas mãos, sei o sofrimento desses jovens que queriam ser carpinteiros, electricistas, cabeleireiras... mas que têm de penar numa escola que nada lhes diz... E depois vão reprovando ano após ano num ciclo vicioso que não é favorável nem à escola nem aos alunos!
É tão violento obrigar a estudar quem não o quer fazer como retirar da escola aqueles que gostariam de continuar os estudos.
Porque será que ninguém pensa nisso?

11 comentários:

MWoman disse...

Bom, venho eu fazer a ronda antes de me deitar, para fazer sono(!)e deparo-me com isto! E não é que que também acho? Será que ninguém vê e sente que é uma violência mesmo? Criar alternativas é preciso e é urgente! Os cursos tecnológicos existem, o pior são as saídas!E não só, é que afinal os tais ditos cursos tecnológicos não são tão acessíveis como deveriam ser e desistir acaba por ser o caminho mais à mão e aparentemente mais fácil.

(P.S. O teu nick vai à frente! Puseste a família e os amigos todos a votar? hehehe)

SaltaPocinhas disse...

@@ MWOMAN: A família está-me a sair pior que a encomenda... são mais os amigos. Enviei um mail de campanha eleitoral! Se não recebeste é porque não tenho o teu,pois eu mandei para a lista todinha! :-)

Carla disse...

É verdade. Conheço pessoas que tiraram cursos práticos, daqueles de 3 anos que dão equivalência ao 12º ano, e que foram muito mais felizes assim do que se tivessem que andar agarrados aos livros. Realmente há quem não goste de estudar, mas devia de haver mais alternativas para esses casos. Pode ser que comece a haver mais... Beijo grande :)

Varela de Freitas disse...

Como é óbvio estou de acordo com as opiniões expressas. Os cursos profissionais são extremamente importantes e devem de facto ser tomados em atenção por este novo governo. Desde que eles não representem um factor de discriminação social, como no passado, claro. Mas cada vez há menos esse risco. O que a Carla diz é verdade, e há alguns estudos que o comprovam. Bom post, Saltapocinhas!

peciscas disse...

Por que é que há muitos jovens que não gostam de estudar?
Não será porque a escola que hoje temos, parou no tempo e não consegue responder aos desafios que hoje se lhe colocam?
Não será porque continuamos a apostar em metodologias e soluções que já estão esgotadas?
E isso resolve-se com exames?
Que, em duas horas podem decidir sobre o trabalho de ûm ano ou mais?
Cursos profissionais? Sim, mas que não sejam uma espécie de caixote do lixo para onde se atira o refugo.
Porque estamos num país ainda muito atrasado em termos de cultura geral e de espírito de cidadania, aposto numa formação básica de qualidade e que faça,desde sempre e para todos, o contacto com a realidade profissional.
Não se pode pensar:vais para carpinteiro ou para cabeleireira ou para mecânico e, por isso, não precisas de saber matemática ou de ler e escrever convenientemente ou de falar um pouco de inglês.
Há uma base que deve ser comum a todos e a necessidade de, a certa altura, se enveredar por cursos profissionalizantes (e sempre em ligação às empresas, porque o esquema das velhas escolas comerciais e industriais já não serviria agora) não deve significar a obrigatoriedade de, precocemente, se obrigar um aluno a opcções que podem ser altamente discriminatáorias.

SaltaPocinhas disse...

@@ AJCM: Não concordo com tudo o que dizes, embora concorde em parte. Mas, acredita, há crianças que não gostam mesmo da escola. Assim, sem mais, tal com eu não gosto de favas!
Temos de perder a mania de que a escola tem culpa de tudo!! E eu não falei em "mandar" as meninas para cabeleireiras... Eu falei numa menina que QUER SER cabeleireira e nunca mais se vê livre da escola! E se um dia, depois de adulta lhe apetecer nada a impede de voltar à escola!
E o menino que queria ser carpinteiro já tem agora uns 18 anos, andou na escola até ao limite de idade a aterrorizar colegas e até alguns profesores e quando, finalmente, o deixaram vir embora, já era tarde demais.. Já se tinha metido por caminhos de volta difícil!
Eu quando falo em situações, estou a vê-los à minha frente! Tem a desvantagem de poder generalizar erradamente, mas tem a vantagem de saber exactamente do que estou a falar e não a filosofar!

PARTILHAS disse...

Pois eu sou completamente de acordo!!!!
Chamem-lhe o que quizerem, mas por favor dêm a oportunidade às crianças de saberem fazer alguma coisa, como deve de ser.
Não falo do que se aprende nas Faculdades... ou da sua aplicação prática e dos cursos, que não têm qualquer prespectiva real no mercado do trabalho.
A maioria dos nossos jovens é "quase" que obrigado a ser Dr. e depois, a aprender à sua custa, que de muito pouco lhe pode eventualmente servir.
Acabam, por fazer o que não foram preparados, para... e claro está que não o fazem bem. Além de sofrerem o diabo, por isso.
Mais um tema, real. Parabéns!

JesusRocks disse...

Em relação à questão dos exames, penso que deveria haver abordagens diferentes. O peso de um exame na nota final deveria ser diferente consoante a área de estudos. O critério a seguir deveria ser ajustado em função do tipo de profissão a que essa área dá acesso.

A capacidade de resposta em situações pontuais é irrelevante em certas profissões (professor, músico/compositor, mecânico, arquitecto, etc.) mas é vital noutras (médico cirurgião, piloto aviador, polícia).

Pessoalmente defendo que os exames deveriam, em certos casos, ser substituidos por outras formas de aferição de conhecimentos com um formato mais contínuo (menos pontual).

Em relação à questão do sistema educativo e da forma como se seleccionam as áreas para as quais os alunos são direccionados, acho que tudo funciona mal em Portugal.

É rídiculo pensar que todos os indivíduos com 18 anos de idade (ou menos) têm uma ideia clara e objectiva daquilo que querem fazer na vida. Nessas idades, a única certeza que algumas pessoas têm é a de que não pretendem estudar mais durante uns anos.

A obtenção de diplomas académicos também funciona mal. Uma licenciatura na área das ciências exactas leva geralmente 5 anos a tirar. Quer isto dizer, que uma pessoa leva 5 anos da sua vida a estudar (se não tiver que trabalhar para pagar os estudos, senão acrescem mais uns anitos às contas) e se calha a falhar uma cadeira no último ano do curso, tem exactamente a mesma equivalência académica de um jovem de 17 anos que acabou o 12º ano. Isto é, no mínimo, ridículo. Não seria mais justo e proveitoso haver um escalonamento mais progressivo, como o caso inglês em que a atribuição de diplomas é geralmente anual?

Isto são temas que dão pano para mangas (bem compridas).

And now, just for the record, Eu votei no nick saltapocinhas! ;)

Leonoretta disse...

olá saltapocinhas. ainda te lembras de mim? sim, outra professora...
concordo contigo pela experiência que as aulas nos dão: há crianças que não gostam de estudar. da escola gostam e muito.
e se não gostam de estudar, ajcm, não é porque a escola esteja na mesma: eu dentro do "programa" dou as aulas como quiser, ainda tenho autonomia para isso. Inovo como eu quiser.
trabalho em chelas. tenho na minha turma cinco miudos com quinze anos ao nível do 2º ano que estariam muito melhor em cursos onde utilizassem mais as mãos em trabalhos repetitivos porque simplesmente não conseguem transpor algo aprendido para situações diferentes.não têm capacidade cognitiva.

exames? não!!!!
eu faço avaliação continua.por enquanto posso fazê-la.

abraço da leonor

Leonoretta disse...

olá saltapocinhas. ainda te lembras de mim? sim, outra professora...
concordo contigo pela experiência que as aulas nos dão: há crianças que não gostam de estudar. da escola gostam e muito.
e se não gostam de estudar, ajcm, não é porque a escola esteja na mesma: eu dentro do "programa" dou as aulas como quiser, ainda tenho autonomia para isso. Inovo como eu quiser.
trabalho em chelas. tenho na minha turma cinco miudos com quinze anos ao nível do 2º ano que estariam muito melhor em cursos onde utilizassem mais as mãos em trabalhos repetitivos porque simplesmente não conseguem transpor algo aprendido para situações diferentes.não têm capacidade cognitiva.

exames? não!!!!
eu faço avaliação continua.por enquanto posso fazê-la.

abraço da leonor

SoulHeaven disse...

EU ADORO ESTA MULHER!!! lolololol

E depois do post seguinte, a ideia sai ainda mais reforçada!!! MUITOS PARABÉNS!!!

Agora mais em concreto sobre o assunto, eu estou muito de acordo contigo... Nem todos temos de ser doutores, engenheiros, arquitectos... Temos é de ser competentes!!! E não é marginalizando quem não tira boas notas, quem trabalha em vez de estudar que se cria competência...

Eu acho que há mentalidades, mais antigas, que devem ter snifado qualquer coisa e só sabem dizer merda... porque eu oiço tanta gente falar mal de alunos porque tiram más notas, ou porque só têm o nono ano... Mas esquecem-se que as crianças, porque mesmo com 18 anos, não deixam de o ser, podem ter problemas em casa, podem não gostar do que estão a fazer e fazem-no para não arranjar problemas, esquecem-se até que, como a leonoretta disse, podem só ter falhado uma disciplina no 12º... No entanto, por mil e uma razões possíveis, deixaram a escola e agora estão a trabalhar... com o nono ano...

No entanto, eu defendo os exames nacionais no 9º e no 12º ano... E sou muito a favor de existirem as provas globais no 10º e 11º. Porque vejamos, se há um programa, ele tem de ser cumprido! Não podemos andar a esconder isso!! Cada professor dá o programa à sua maneira, mas TEM de o dar!! E eu sei que isso não acontece!! E ISSO ASSUSTA-ME!! Porque é possível responsabilizar uma criança pelas notas que tem, por ser "burra", quando a razão possível é o professor anterior não ter dado matéria e eles agora não percebem... Além disso, concordo bastante (nem vejo outra maneira de fazer as coisas...) com a avaliação contínua. No entanto, penso que é preciso haver um exame imparcial. Claro que o grau de dificuldade pode ser discutido... Mas acima de tudo é preciso haver isenção de "favores" (e digo favores de uma maneira carinhosa). Porque se quiserem seguir a faculdade, isso acaba-se... Os exames podem decidir a vida de uma pessoa em 2 horas? sim... podem. Mas uma queca também pode. E podem nem ser precisas duas horas...

Há que criar este sentido de responsabilidade, mas tem de haver condições para isso!

Agora vou explicar a minha história, para vocês me perceberem... Eu acabei o 12º com média de 18, segui Engª Mecânica no IST. No entanto, no 12º ano, a minha prof de matemática era uma MONGA!!! Porque se andava a cagar para aquilo... ela lá tinha as suas razões, provavelmente familiares... Mas eu não posso aceitar que duas semanas antes do exame, ao fazer um exercício, se aperceba que não deu algumas fórmulas trigonométricas, como sen(2a). Ninguém sabia aquilo, tirando eu e mais alguns que já se tinham apercebido do que se passava e foram para a explicação porque não queríamos falhar no exame! E ela, muito simplesmente, escreve a fórmula no quadro e diz: "Então decorem isto porque provavelmente vai sair no exame." E agora!? a única coisa que me vêm à cabeça é o Homem-a-quem-parece-que-aconteceu-não-sei-o-quê!...

Depois no IST reparei que não estava a gostar daquilo... Não era o que eu queria... Porque era tudo teórico, o material dos laboratórios estava sempre estragado, os colegas não tinham a mínima noção de respeito... enfim... podia contar histórias, mas isso era pôr coisas feias no blog desta grande senhora, e eu não gosto disso... Quando as propinas subiram, os resultados práticos disso viam-se pelo canudo, fiquei doente e não pude usufruir das aulas... Não o pude justificar, paguei as propinas e chumbei o ano...

Aí decidi desistir! Claro que foi um choque, para quem me conhece, todos me viam como Engº... E eu confesso que também fiquei um pouco desorientado... Acabei a trabalhar na Pizza Hut, para não ficar em casa sem fazer nada sem ser pedir dinheiro aos meus pais, acabei a carta de condução, e inscrevi-me para um curso Ab-initius de Técnico de Manutenção de Aeronaves da TAP Portugal. Consegui passar nos exames de acesso, estou à espera de começar o curso, de um ano e 6 meses de estágio, em Maio... Não vou ser Engº mas de certeza que terei um ensino ao melhor nível, com elevada componente prática, dado por uma empresa de renome em todo o Mundo e estou SUPER ansioso por começar, dar o meu melhor e provar quem sou!!

Tenho imensa pena que muita gente que trabalhou comigo na Pizza Hut não pense o mesmo que eu, pois são tão inteligentes como cada um de nós... Só que trabalham ali... e para eles, são apenas empregados de mesa ou gajos que fazem pizzas...

A marginalização de que muitos são alvo, principalmente na idade em que são atingidos, faz deles gente pessimista... gente que não acredita no sonho que tem, gente deprimida, revoltada... Mas todos temos as nossas razões e eu não os posso censurar, quando conheço de perto as razões deles... Não é fácil dizer: EU NÃO QUERO MERDA DE CURSO SUPERIOR PARA NADA!!! Porque não sentem que precisam disso para ser alguém... Para se ser alguém temos de ser capazes de concretizar os nossos sonhos e só isso nos torna felizes. O problema, a meu ver, mais do que os exames, do que as avaliações, do que os cursos superiores, é mudar esta mentalidade de que os sonhos dos mais velhos, são os melhores sonhos para nós... E passar a aceitar que um canalizador ou um carpinteiro, se for competente e trabalhador, é tão útil e tão digno como um sr doutor ou um sr engº...

E pronto, fico-me por aqui e acho que até já escrevi demais... a partir daqui era só dizer coisas sem sentido! =D

Muitos beijinhos para a saltapocinhas!!

PS: eu também votei no teu nick!!! ;)