6 de maio de 2005

O fim da culpa

Não ia escrever mais sobre o assunto "culpa" (afinal este blog não é para ser levado demasiado a sério), mas a qualidade e quantidade dos comentários leva-me a esclarecer algumas questões:

Não é verdade que há 30 anos ninguém reprovava. Quem tem a minha idade ou é mais velho, com certeza que se lembra de haver, lá bem ao fundo da sala, o grupo dos "repetentes". Essas crianças que não conseguiam aprender, para lá ficavam até completarem 14 anos. Depois iam à vida delas (trabalhar...) e não iam estragar as estatísticas dos liceus de então.

Quando um casal em que os dois trabalham fora resolve ter filhos, a partir do momento em que eles nascem, têm de arranjar alguém (pessoa ou instituição) que fique com eles. Os horários dos pais e da escola normalmente não são compatíveis e há ainda os períodos de férias que, como é completamente legítimo, são maiores para as crianças.
E como referiu a Dulce, o problema é que os pais deveriam ter mais tempo para estar com os filhos.
Muitos não estão porque não podem, mas há muitos que não estão porque não querem...
Alguns passam a vida a dizer que têm pouco tempo para estar com os filhos, mas andam sempre a arranjar maneira de os manter ocupados em milhentas actividades.
Toda a gente conhece crianças com "agendas" mais preenchidas que as de muitos adultos.
E as crianças não brincam ao que lhes apetece, não inventam novos jogos, pois acabam por fazer sempre as brincadeiras sugeridas pelo professor, pelo educador, pelo monitor e sei lá quem mais...

Fico de cabelos em pé quando sei que há pais para quem a escola é apenas um sítio como outro qualquer onde podem "despejar" os filhos enquanto vão tranquilamente à sua vida.
Não é!
A escola é um local de trabalho!
As crianças durante o tempo lectivo trabalham mais do que muitos adultos que eu conheço!
Acho muito bem que se criem condições para que as escolas possam ficar com as crianças num horário mais alargado, não tenho nada contra.
Desde que não se criem mais horas de aulas e o ficar na escola para lá do tempo lectivo seja voluntário.
Ou passa pela cabeça de algum adulto quando tem uns tempos livres ir passá-los no local de trabalho?

Quanto à entrada para a escola aos 5 anos, acho que é muito cedo.
As crianças são muito novinhas para terem tanta responsabilidade. Aprender a ler, a escrever, a contar, são tarefas bem difíceis!
Tal como querem fazer agora com as Universidades, também podiam criar uma espécie de "ano zero" para os pequenos: aos 5 anos ia tudo para a pré (ou mesmo para a escola).
Aprendiam algumas regras, aprendiam a pegar num lápis, a rabiscar, a conhecer as cores, a ouvir e contar histórias...
Muitas dessas actividades as crianças fazem-nas pela primeira vez na escola primária!(É verdade, Varela de Freitas...nem todas as crianças passam pela pré!)

Sobre avaliações, os professores são avaliados todos os anos pelas "autoridades competentes", e todos os dias pelos pais, pelas mães, pelos vizinhos, pelo homem do talho, pela mulher da padaria e ainda por gente que não nos conhece de lado nenhum mas que "ouviu falar".
Parece-me que poucas profissões haverá onde os trabalhadores estejam tão expostos a avaliações...

Para terminar este assunto da culpa, ainda tenho a dizer que sim, tenho culpa de muitas coisas que fiz e de muitas que não fiz...
Mas são culpas minhas, que assumo ou assumi e pelas quais me responsabilizei na devida altura.
Às vezes chego a casa com uma sensação de culpa, de dever não cumprido, por achar que podia ter feito mais e melhor e não fiz porque não me apeteceu, porque estava cansada ou chateada...
Diferente da sensação de impotência do "não fiz porque não me atrevi, esforcei-me ao máximo e não cheguei lá..."
Acredito que todos tenham dias assim...

Quando me referia a "não ter culpa" falava de culpas colectivas.
Daquelas que são de todos para permitir que não se responsabilize ninguém.

10 comentários:

aflores disse...

Depois de ler este fantástico artigo (o meu sincero aplauso)só me lembrei de uma fantástica instituição: Os Avós!! Para quem os teve, foram uma ajuda fantástica. Nos tempos e hoje, com o casal a trabalhar, infelizmente só à hora das refeições muitas das vezes é que a família se encontrava e falava. Foi um esforço muito grande (de que me orgulho) nem eu nem a minha mulher prejudicar a vida profissional, mas jamais esquecer tambem os valores e obrigações familiares, hoje em dia tão adulterados com a "vida maluca" que ás vezes se vive.

SaltaPocinhas disse...

@@ AFLORES: Os avós são sem dúvida a melhor "instituição" que pode haver...Mas acreditas que há pessoas que preferm colocar os filhos em ATL's para que os avós não os "estraguem com mimos"?
O smeus filhos foram ajudados a criar pelos avós paternos e não ficaram nada "estragados": antes pelo contrário! tomara toda a gente ter uns filhos como os meus!

Gustavo Almeida disse...

O desabafo da Saltapocinhas é o desabafo de uma profissional que tenta levar da melhor forma possível, com todas as virtudes e defeitos, a água ao seu moinho. Enquanto professora e ser humano está de parabéns.

Continue, mesmo que, por vezes, grandes dores de cabeça ou esmorecimento de «voluntas».

No que concerne aos comentários anteriores, apraz-me referir que também eu pude ser educado na fase inicial da vida pela minha avó paterna. Daquilo que me lembro, e é muito pouco, deverá ter sido muito especial, pois mesmo de forma inconsciente sinto, ainda hoje, um grande carinho quando lembro essa pessoa.

mfc disse...

A propósito de carga horária,tirando os primeiros 4 anos, os miúdos têm uma carga horária perfeitamente insuportável.
Nem tempo para estudar têm.
Entendo que a carga horária deve ser revista.

Betty Branco Martins disse...

Dizem que os avós deseducam os netos e não se pode negar, há um fundo de verdade nesta afirmação. Os avós não colocam de castigo, dificilmente dão broncas e ainda fazem a maioria das vontades dos netos. Mas, por trás de tantos mimos, existem avós conscientes da sua importância para a formação das crianças. E de facto são uma grande ajuda, tendo em conta, que o casal trabalha, a ajuda dos avós é fundamental, pricipalmente nos primeiros anos. Eu tive essa ajuda e digo: PRECIOSA!

Um beijo

guevara disse...

Mais uma Guerrilheira!
Assim é que eu gosto!
CAda um a falar daquilo que sabe, do que gosta, do que tem formação.
Lembro-me perfeitamente, que ja se começava a debater este assunto no meu tempo. MAs tive a grande sorte de ter uns pais à altura e umas manas porreiras que tomavam conta de mim. E eu brincava, e explorava, e estudava, e nada de televisões!
Como ainda n sou mae, nem tenho muito conhecimento destes assuntos, fico-me por aqui.
E lembro-me dos repetentes, com 14 anos. e eu pequenita cheia de medo 'dos grandes'! Lol

"Parece-me que poucas profissões haverá onde os trabalhadores estejam tão expostos a avaliações..."
e sobre este assunto, sabes que também me incluo, na arqitectura.
Tchiii...e quantos n os há, padeiros, peicheiros, professores, advogados, medicos, engenheiros, trolhas, picheleiros...que teimam em dizer se 'é bonito' ou não se 'é melhor verde que amarelo'.
Ai...

:) bjo

guevara disse...

ai que vergonha!
escrevi peixeiro com CH no comment anterior. Foi das pressas e da hora adiantada. Desculpem...

manuel cabeça disse...

5 daquelas coisas que uns quantos chamam de estrelas.
Não era para ficar surpreendido, ao tempo que aqui andamos, em que aprecio a tua escrita.
Mas pela emotividade e pela razão que colocas no texto, onde abordas, de uma penada, diferentes temas, todos pertinentes, é de estrela.
Parabéns saltapocinhas, a minha admiração.

Clitie disse...

Há coisas que nem nos damos ao trabalho de pensar, falo por mim, que não tenho filhos e todas estas coisas dos horários escolares, das tarefas, dos TPC não me deviam ocupar a mente...mas desde que comecei a espreitar no Fábulas vejo as coisas de outra maneira. Espero ter em mente muitas das coisas que aqui leio, no futuro...

Bjs

Amaral disse...

Li com atenção as tuas exposições e julgo que está tudo dito. Não há melhor para falar de assuntos que as pessoas que estão dentro deles.
E resolver problemas relacionados com o ensino não é pra toda a gente. Há que atender ao lado de lá e ao lado de cá. Para isso, sentem-se à mesa os responsáveis!